você é feliz?

Interromper um parisiense no meio da calçada para perguntar “Você é feliz?” é no mínimo corajoso, principalmente na França de 1960. Este foi o começo do documentário “Crônica de um Verão”, dirigido por Jean Rouch (1917-2004), que acaba de sair em DVD no Brasil.
Abaixo segue a crítica de Marcelo Coelho, que saiu ontem na Folha de S. Paulo.

A imaginação está no poder

Ninguém parecia feliz na França de 1960. Uma reclamação geral: a monotonia do trabalho

O ESTUDANTE deve ter menos de 20 anos e diz que já não tem nenhuma ilusão política. O tempo dos engajamentos passou; não há perspectivas de mudança social. Cada pessoa pensa sobretudo em si mesma, e o fracasso das utopias é patente.
Há movimentos de agressividade em seu olhar, à medida que expõe seu raciocínio. Pudera: está dando entrevista a um intelectual dez ou 15 anos mais velho, já bastante careca e com certo inchaço no rosto, sem dúvida um representante das velhas esperanças e das recentes desilusões com o socialismo.
O intelectual mais velho é Edgar Morin, o estudante se chama Jean-Pierre, e o ano é 1960. O diálogo está no documentário “Crônica de um Verão”, dirigido por Jean Rouch e pelo próprio Morin, que acaba de sair em DVD no Brasil.
O cineasta Jean Rouch (1917-2004) já teve dois ótimos filmes lançados recentemente por aqui: “Jaguar” e “Eu, um Negro”, sobre o cotidiano de trabalhadores na África.
A idéia de “Crônica de um Verão” foi fazer um documentário com habitantes de Paris, seguindo um ponto de vista igualmente “antropológico”. Como vivem este operário da Renault, esta secretária, esta socióloga, este pintor boêmio, este funcionário das ferrovias estatais?
O começo da empreitada não poderia ter sido mais inábil. A equipe vai às ruas, abordando bruscamente as pessoas com uma pergunta que hoje está banalizada em inúmeras pesquisas de opinião: “Você é feliz?”.
Não é preciso conhecer muito os parisienses para saber que as calçadas da cidade estão longe de ser o melhor lugar para entabular qualquer conversação.
Diante de uma mesa de jantar, com vinho à vontade, o diálogo se torna bem mais íntimo, com perturbadora rapidez.
Não, ninguém parecia feliz na França de 1960. Uma reclamação geral: a monotonia do trabalho. Angélo, o operário, é um tipo nervoso, seco, esportivo, que se move de um lado para outro como um animal enjaulado. Despreza, não os patrões, cujo rosto nunca viu, mas os colegas, que fingem ser mais do que são. Volta para casa, faz um pouco de exercício, abre um livro e dorme.
Marilou, a secretária da famosa revista de cinema, aparece saindo de seu minúsculo apartamento “de empregada”, no último andar de um prédio. Perto da escada, vemos um pormenor que talvez fosse trivial nos anos 60: uma pia coletiva, único ponto disponível de água corrente para os moradores daquele andar.
Passamos para outro casal, contente com o apartamento novo na periferia. A mulher gostaria de ter mais dinheiro, mas em todo caso já não enfrenta os percevejos que infestavam suas noites na casa que deixou. O marido não pensa tanto no dinheiro, mas queria outra vida, queria realizar-se, queria mais tempo para ser ele mesmo…
E a câmera mostra, sem precisar de mais nada além de um pequeno movimento lateral, o rosto da mulher à medida que vai ouvindo as confidências do marido: o olhar dela se agita sem parar, numa inquietação que não é de raiva, mas que reproduz os movimentos enjaulados do operário na cena anterior.
Talvez em todas essas pessoas não fosse a “infelicidade” o sentimento predominante. O que há, sobretudo, é insatisfação e vazio. Muito tédio, e muita solidão. Aquele verão de 1960, com toda certeza, prenuncia o tão falado Maio de 68: companheirismo, utopia e quebra da rotina iriam ganhar as ruas.
Mas tudo pode ser, também, uma ilusão de ótica. Não só porque sabemos o que viria depois. O próprio ponto de vista de Morin e Rouch estava certamente à espera dos sonhos que surgiriam depois daquele verão.
Não se mostra muito, por exemplo, dos vínculos familiares, dos namoros, dos lazeres daqueles personagens, vários deles, aliás, à beira da depressão. Fora do trabalho, é como se não tivessem o que fazer, e, lá, o que têm a fazer é insuportável.
A grande ausência, na vida desses personagens, não foi preenchida pelas esperanças de Maio de 68. Além da água encanada, o que chama a atenção no filme é a falta de uma coisa cuja importância talvez eles próprios não percebessem ainda: a televisão. Voltam para casa, estão sozinhos. Quando a TV chegou para a maioria, acho que provavelmente tudo se aquietou: era a imaginação (não a deles) que estava no poder.

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